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Now !

quarta-feira, 5 de agosto de 2009
E se um dia acordasses e tudo o que te rodeia não passasse de cinzas. Se um dia acordasses e ele não estivesse aqui. Se acordasses e a felicidade fosse apenas memória de um passado longínquo… Onde irias tu recrutar forças? Onde irias tu Saphira?
Serias capaz de sentir a brisa? Serias capaz de te levantar, erguer a cabeça e correr mundo fora à procura de algo que só existe dentro de ti? Serias capaz de limpar as lágrimas, respirar fundo e inspirar novamente a essência do mundo? Conseguirias deixar o passado para trás, o futuro como ele é, incerto, e viver cada momento como se o amanhã não passasse de uma miragem… Sim Saphira. O amanhã é uma miragem, sempre que o alcanças, não passa do teu próprio presente. Nunca chegas ao futuro, porque ele existe somente na tua mente. Não voltas ao passado porque ele também só existe nos teus pensamentos. Para quê continuar a viver nas malhas da imaginação, no irreal?
O momento é agora. Só agora poderás mudar o mundo. Só agora poderás ser tu mesma. Achas isto assustador? Bem-vinda à vida Saphira.

Phi.

Prólogo

sexta-feira, 31 de julho de 2009
Olha para trás e eles continuam lá. Só pode continuar a correr enquanto a vontade falar mais alto que o desgaste do corpo. Corre como se o espaço se resumisse a uma linha recta sem fim, nem becos, nem abismos. Não gasta energia a tirar o cabelo que se atravessa teimosamente em frente aos seus olhos, e neste momento, isso já nem a incomoda. Não precisa de ver, simplesmente precisa de continuar a correr. Já mal sente, como se tivesse sido anestesiada, e só se apercebe que caiu de joelhos no chão, porque ouviu um baque seco dos seus ossos a bater no duro cimento. Mil e um pensamentos atravessaram-lhe a mente, no entanto nenhum deles permaneceu mais que dois segundos. Tempo suficiente para sentir uma mão húmida e fria no seu ombro. Não teve coragem para se voltar, não teve coragem sequer para pensar no seu destino… o fim parecia estar tão próximo e no entanto sentia que aquele não podia ser o fim. Não agora, não naquele lugar, não assim. De repente tudo começa a ficar com tonalidades cada vez mais escuras, o chão por baixo do seu corpo desvanece, assim como todas as suas emoções. Abre os olhos. Afinal não passava de um sonho. Dele resta apenas a respiração ofegante.
Levanta-se rapidamente e dirige-se à casa de banho onde passa a cara por água fria. Esfrega a mão no espelho embaciado e observa o reflexo do seu rosto. Afasta os seus compridos cabelos que emanam tons dourados. As gotas de água atravessam a sua pele clara e lisa, contornando o seu nariz e os seus lábios bem delineados. Olha para o relógio de pulso e constata que ainda é cedo. Perfeito. Dirige-se à varanda, abrindo a janela com vista para a cidade e para o rio que a trespassa de um lado ao outro. O sol, ainda nas suas primeiras jornadas de caminho em direcção ao céu, traz consigo a promessa de mais um dia solarengo. O reflexo deste astro naquele rio sempre a fascinara. Era como se houvesse duas dimensões. Onde o real reflectia a sua essência em outro qualquer lugar e só os mais atentos conseguiam senti-lo. Por isso eram poucos aqueles que conheciam o outro lado. Aqueles que conseguiam sentir realmente a felicidade e outros sentimentos mais profundos, mais puros. Claro que toda a gente, em algum momento da sua vida, diz ter sido feliz, ter amado. Mas não durou muito. E é essa a grande diferença daqueles que de facto vislumbram a verdadeira essência das coisas, entre aqueles que simplesmente pensam que sentem. Quando captamos a essência de algo, esse algo torna-se tão belo para nós, tão natural, tão puro, que muito dificilmente conseguimos esquece-lo, ignora-lo. A natureza está cheia de coisas belas, o próprio universo possui uma harmonia de tal ordem que é capaz de fascinar qualquer um que se digne a observa-lo um pouco mais. Ela sabia-o. E era por isso que lhe dava tanto prazer ficar horas simplesmente a observar a natureza e até as próprias pessoas. Foi nesta observação, nesta abstracção de pensamentos, que descobriu uma cura para a alma. Descobriu algo que lhe mudaria a vida para sempre. Antes, vivera de acordo com o que a mente lhe ditava, com o que os pensamentos lhe sussurravam, com as emoções que sentia. Quando amou pela primeira e única vez na vida, tinha breves vislumbres dessa essência, desse sentimento de paz e felicidade que ingenuamente pensava vir dos acontecimentos. Mas não, esses sentimentos vinham de dentro, do mais profundo do seu ser. Era por isso capaz de amar. Capaz de estar com aquela pessoa e não a julgar, ouvi-la, às suas palavras, aos seus silêncios. Agora começava a entender o porquê daqueles olhares atentos que perscrutavam a face dele durante longos minutos. Estava apenas a respirar a sua essência. A deixar-se embalar por uma paz quase aterradora. Era isto. Era isto que sentia quando amava com todo o seu ser. Era simplesmente isto. Simples, mas tão grandioso que só de recordar a fazia tremer. E ela sabia-o. Sabia que não voltaria a senti-lo tão cedo. Só não sabia que algo estava prestes a acontecer, algo que mudaria a sua vida para sempre.


                                                                                                                                              Saphira